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O JESUS QUE EU NUNCA CONHECI - Philip Yancey

 

1. O Jesus que eu pensava conhecer

Vamos supor que tenhamos ouvido os comentários de muita gente acerca de um homem desconhecido. Suponhamos que fiquemos perplexos ao ouvir alguns dizerem que ele era muito alto, e outros, muito baixo; que alguns se opuseram à sua obesidade, outros lamentaram sua magreza; que alguns o acharam muito moreno, outros, muito loiro. Uma explicação [...] seria talvez que tivesse uma aparência estranha. Mas há outra explicação. Poderia ter a forma correta [...] Talvez (em suma) essa coisa extraordinária seja na realidade algo comum; pelo menos o normal, o âmago.

G. K. Chesterton

Conheci Jesus quando era criança, cantando “Sim, Cristo me ama” na escola dominical, fazendo orações antes de dormir ao “Querido Senhor Jesus”, vendo professores do clube bíblico movimentar figuras no flanelógrafo. Associei Jesus a bolachas açucaradas com suco e a estrelas douradas que os alunos assíduos recebiam.

Lembro-me especialmente de um quadro na escola dominical, uma pintura a óleo que pendia da parede de concreto. Jesus tinha cabelos longos, flutuantes, diferentes dos cabelos de qualquer outro homem que eu conhecesse. O rosto era comprido e bonito; a pele, macia e branca como leite. Usava um manto escarlate, e o artista havia-se esforçado por mostrar o jogo de luzes nas dobras. Nos braços, Jesus aninhava um cordeirinho adormecido. Imaginava-me como aquele cordeiro, abençoado além da imaginação.

Há pouco li um livro que o velho Charles Dickens escreveu para resumir a vida de Jesus aos filhos. Nele, surge o retrato de uma doce governanta vitoriana que acaricia a cabeça das crianças e dá conselhos como: “Agora, crianças, devem obedecer à mamãe e ao papai”. De sobressalto, lembrei-me do quadro de Jesus que via na escola dominical, o qual me acompanhou por toda a infância: alguém bondoso e confortante, sem nenhuma aresta — um herói afável antes da época da televisão para crianças. Quando criança, sentia-me confortado com essa pessoa.

Mais tarde, ao cursar a faculdade cristã, encontrei uma imagem diferente. Uma pintura popular naquele tempo apresentava Jesus de mãos estendidas, suspenso, num estilo que lembrava Dali, sobre o prédio das Nações Unidas, em Nova York. Ali estava o Cristo cósmico, aquele a quem todas as coisas são inerentes, o ponto imóvel do mundo em transformação. Essa figura mundial se afastara bastante do pastor da minha infância que carregava uma ovelha.

Ainda assim, os alunos falavam do Jesus cósmico com uma intimidade chocante. Os professores insistiam conosco para que desenvolvêssemos um “relacionamento com Jesus Cristo”, e nos cultos da faculdade cantávamos o nosso amor por Ele da forma mais íntima. Um hino falava sobre ouvir a sua voz em um jardim coberto de gotas de orvalho.1 Os alunos, quando davam testemunho de sua fé, espontaneamente deixavam escapar frases como “O Senhor me disse...”. Minha fé mesmo pendia numa espécie de incerteza cética durante o tempo que passei ali. Eu estava desconfiado, confuso, sempre a questionar.

Olhando em retrospectiva para os meus anos de faculdade cristã, vejo que, apesar de todas as intimidades devocionais, foi ali que Jesus se me tornou estranho. Passou a ser um objeto de escrutínio. Memorizei nos evangelhos a lista dos 34 milagres específicos, mas não pude sentir o impacto de apenas um milagre que fosse. Aprendi as bem-aventuranças, mas nunca enfrentei o fato de que nenhum de nós — eu especialmente — poderia atinar com o sentido daquelas palavras misteriosas, muito menos viver por elas.

Um pouco depois, a década de sessenta (que na realidade me atingiu, junto com a maior parte da igreja, no começo da década de setenta) pôs tudo em questionamento. Os “defeitos” de Jesus — o próprio termo teria sido um paradoxismo nos tranqüilos anos da década de cinqüenta — subitamente apareceram em cena, como se depositados ali por extraterrestres. Os discípulos de Jesus já não eram representantes bem-vestidos da classe média; alguns eram radicais relaxados, desmazelados. Teólogos da libertação começaram a venerar Jesus em pôsteres junto com Fidel Castro e Che Guevara.

Comecei a perceber que quase todos os retratos de Jesus, mesmo o Bom Pastor de minha escola dominical e o Jesus das Nações Unidas de minha faculdade cristã, mostravam-no usando bigode e barba, ambos estritamente banidos da faculdade. Agora perguntas que nunca me ocorreram na infância começaram a avultar em mim. Por exemplo: Como o ato de dizer às pessoas que fossem boas umas para com as outras pôde levar à crucificação de um homem? Que governo executaria o senhor Rogers ou o capitão Canguru? Thomas Paine dizia que nenhuma religião poderia ser verdadeiramente divina se contivesse qualquer doutrina que ofendesse a sensibilidade de uma criança. A cruz se qualificaria?

Em 1971 vi pela primeira vez o filme O evangelho segundo S. Mateus, dirigido pelo produtor italiano Pier Paolo Pasolini. Sua divulgação escandalizou não apenas a instituição religiosa, que dificilmente reconhecia Jesus na tela, mas também a comunidade do cinema, que conhecia Pasolini como homossexual declarado e marxista. Pasolini cinicamente dedicou o filme ao papa João XXIII, o homem indiretamente responsável por sua criação. Preso em um enorme congestionamento do tráfego durante uma visita papal em Florença, Pasolini se hospedou em um quarto de hotel onde, aborrecido, pegou um exemplar do Novo Testamento da mesinha de cabeceira e leu todo o livro de Mateus. O que desco­briu naquelas páginas o deixou tão perplexo que decidiu fazer um filme utilizando, não o texto, mas a releitura atual do evan­gelho de Mateus.

O filme de Pasolini captou bem a reavaliação de Jesus que aconteceu na década de sessenta. Filmado no sul da Itália com um orçamento apertado, evoca em brancuras de giz e cinzas poeirentos um pouco do ambiente da Palestina em que Jesus viveu. Os fariseus usam turbantes altos, e os soldados de Herodes lembram de certa forma os squadristi fascistas. Os discípulos agem como recrutas inexperientes e convencidos, mas o próprio Jesus, com um olhar firme e uma intensidade penetrante, parece destemido. As parábolas e outros monólogos, ele os desfere em frases resumidas a esmo, enquanto corre de um lugar para outro.

O impacto do filme de Pasolini só pode ser entendido por alguém que passou pela adolescência naquele período tumultuoso. Naquele tempo o filme tinha o poder de fazer calar multidões nos cinemas. Estudantes radicais perceberam que não eram os primeiros a proclamar uma mensagem dissonantemente antimaterialista, contra a hipocrisia, pró-paz e pró-amor.

Para mim, o filme ajudou a forçar uma reavaliação perturba­dora da imagem que eu tinha de Jesus. Na aparência física, Jesus favorecia os que foram expulsos da faculdade cristã e foram rejeitados pela maioria das igrejas. Entre os de sua época, adquiriu de certa forma uma reputação de “beberrão de vinho e glutão”. Os que tinham autoridade religiosa ou política consideravam-no criador de problemas, um perturbador da paz.

Ele falava e agia como um revolucionário, desprezando a fama, a família, a propriedade e outras medidas tradicionais do sucesso. Eu não podia me esquivar ao fato de que as palavras do filme de Pasolini estavam inteiramente de acordo com o evangelho de Mateus, mas sua mensagem não se encaixava claramente em minha concepção anterior de Jesus.

Mais ou menos nessa mesma época, um obreiro da “Young Life” [Vida Jovem] chamado Bill Milliken, que criou uma comunidade nas vizinhanças de uma cidade do interior, escreveu So long, sweet Jesus [Adeus, doce Jesus]. O título desse livro deu palavras à transformação que se operava dentro de mim. Naqueles dias eu trabalhava como editor da revista Campus Life, publicação oficial da Mocidade para Cristo nos Estados Unidos. Quem era esse Cristo, afinal?, eu ficava imaginando. Enquanto escrevia e revisava ou preparava as obras dos outros, um pequenino demônio da dúvida pairava bem a meu lado. Você realmente crê nisso? Ou está simplesmente administrando a linha do partido, o que lhe pagam para você crer? Você se juntou à instituição conservadora, segura versão moderna dos grupos que se sentiam ameaçados por Jesus?

Sempre que podia, evitava escrever diretamente sobre Jesus.

 

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